quinta-feira, outubro 28, 2010

Com a 'morada aberta', mas sem bruxedos





“Vejo espíritos, vejo pessoas mortas e falo com elas”, assume sem reservas Joaquina. A imagem mental que nos cria é assustadora, arrepia. “Não tem medo?” perguntámos. “Não tenho medo nenhum, não posso evitar, tenho a morada aberta!”
A “morada aberta” é uma expressão que acompanha a identidade mística destas pessoas. “Ter a morada aberta é ter um dom”, explica-nos Joaquina, já Serafim afirma que é “viver em sofrimento pelos outros”. Geralmente, segundo nos explicaram, é algo que vem de nascença, não se cria, não se escolhe. “Em 1972 tentei fechá-la” recorda Joaquina, explicando os motivos de tal resolução. “Tinha vergonha. O meu marido estava na Guiné e eu pedi à minha sogra para me ajudar. Naquele tempo, em 1972, gastei cento e cinquenta contos a tentar fechar a morada”. Mas não conseguiu. “Corri tudo, para tentar fechá-la, até ao Algarve fui, e houve um padre que se não vem em meu auxílio eu morria, já estava a deitar postas de sangue pela boca fora.” Em tom de desabafo acaba por confidenciar: “quem me dera ter conseguido, mas isto tem que ser, não é uma opção”.

Ilustração: Vitor Martins

Leia a reportagem na íntegra na edição impressa do Jornal Entre Margens